
Há ocorrências na vida real que fazem a ficção parecer pouco imaginativa. O assassinato da bela jovem iraniana Neda, foi divulgado viralmente por toda internet, a mistura de horror e curiosidade mórbida ajudou a divulgar o chocante vídeo. Para a maioria das pessoas é muito raro assistir o exato momento em que a vida cessa, ainda mais daquela forma tão efêmera, tão à toa, e com todos aqueles celulares morbidamente filmando (cá entre nós, eu não conseguiria continuar filmando).
Além de sua juventude e beleza, o que chama a atenção é que a tradução do significado do nome Neda é “voz”, o que ajuda a construir o mito, o símbolo, que está para esse início de século, como aquele homem franzino de camisa branca, gravata e pasta que parou uma coluna de tanques na Praça da Paz Celestial, esteve para o final do século passado.
Escrevi aqui que há algo de desumano nesse processo de transformação em ícone, há algo de muito desagradável para mim, transformar a morte dessa jovem no símbolo de uma causa, uma causa indefinida, que muitos querem que seja a causa da liberdade e democracia no Irã, ou a causa da revolução de um outro mundo possível. Ou qualquer outra coisa assim, e vão a transformando em mito, em símbolo, e lhe retiram a humanidade, lhe dão uma voz de heroína, mas nada muda o fato de que sua voz foi extirpada da terra injustamente.
Injustamente como milhões, ouso dizer bilhões de outros jovens que derramaram, derramam e derramarão seu sangue, por convicção de suas causas, por obrigação, pra se defender ou para atacar os outros. São chamados de mártires. São heróis, vítimas, algozes, vilões ou soldados desconhecidos. Rótulos, que servem a causas, mas não servem para descrever a barbárie em que vivemos. Porque, sem sombra de dúvida, a voz que faz falta para a família não é a voz da revolução, mas a de Neda, seus maneirismos, suas esperanças, tudo que ela poderia ou não ter sido.
Tenho uma convicção de que quando não levamos em conta o fator humano, as pessoas e o impacto das ações na vida das pessoas, perdemos parte de nossa humanidade, não obsta quão nobre acreditemos que são nossos passos, daí mesmo a sabedoria popular dizer que de boas intenções o inferno está cheio.
Analisar as relações internacionais é, sem dúvida, analisar coletividades, sociedades, traços gerais e ações de atores relevantes. As teorias os transformam em entes racionais, em entidades sistêmicas, como partículas numa molécula. Isso nos ajuda a entender, mas não podemos perder de vista as pessoas. Isso quer dizer que eu acredito que devemos fazer ciência social para mudar a realidade? Não. Quer dizer que temos responsabilidades com a humanidade, com a nossa própria humanidade. Isso não pode ser jamais esquecido, teorias e ideologias não podem nos cegar ao ponto de achar que a vida não é o máximo valor a ser preservado.
As idéias podem até mesmo viver mais que as pessoas, mas é uma questão do que vem primeiro, o ovo ou a galinha, nesse caso é bem mais fácil, mesmo sendo imateriais e imortais as idéias são gestadas pelas pessoas, uma prova a mais do valor da vida humana e da tragédia, que é a perda. Não tenho ilusões, milhares de vidas são perdidas a todo o momento, sem motivos e com motivos. Tudo isso é uma realidade que acredito ser imutável, algo que está na natureza humana, nós somos criativos em novos meios e justificativas para nos matar, mas não custa nada ter a esperança de que possamos, ao menos, minimizar a quantidade de sangue perdido, ainda mais sobre ilusões utópicas ou atos gratuitos de violência.
De todo modo a morte daquela jovem ficará na minha mente, não como símbolo de uma geração que clama por liberdade, ou símbolo da ignorância e intolerância daqueles que se encastelam no poder, mas sim como marca de como viver é um verbo transitório, ainda que a gramática não corrobore isso.
Politicamente todos esses episódios revelaram uma oposição existente no Irã, mas até agora o grosso dessa oposição é interna ao regime, pretende mantê-lo com alguma variação e no final tudo se mantêm como estava. O regime parece começar a decair, mas não há como antever o ritmo dessa queda, nem que tipo de reformação política haverá, ainda mais porque a sociedade iraniana é antiga, sofisticada e não a invenção de regimes colonialistas. Como analista, também nos cabe evitar ver o mundo como uma batalha entre bem e o mal, por que é no cinza dessa luta de sombras e luz que quase todos nós vivemos.
Imagem: Neda Kreuz.


















qui, 23 jul, 2009
Artigos / Opinião, Conflitos Armados, Oriente Médio, Ásia-Pacífico