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Táticas de Negociação Eticamente Ambíguas

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Todo negociador enfrenta desafios durante o processo. Um dos mais complexos é o dilema das escolhas éticas de suas próprias táticas negociadoras e como reagir a táticas negociadoras de sua contraparte. Em ambiente internacional ou multicultural o desafio se aprofunda, porque pode não haver um terreno comum do que é considerado eticamente válido e não. E essas percepções podem levar os negociadores a posições que tornam um acordo em um contrato impossível, o que gera prejuízos (pelo tempo perdido no processo e pela oportunidade perdida). Além de depender de como essa negociação rompeu, o negociador pode arriscar sua própria idoneidade quanto à da empresa ou organização a qual representa.

Há um farto campo de estudo, tanto nas áreas das relações internacionais quanto da administração, que se dedicam a estudar negociações e os processos de tomada de decisão, muitas vezes solitárias (e rápidas, ali na mesa mesmo). Um desses campos é o do processo de decisão ético, que é um dos campos que lida com o negociador e suas ações e percepções. Não há como, na prática, dissociar uma negociação de quem a faz, não obstante se diplomatas em acordos intricados, ou homens de negócio jogando com o futuro de suas carreiras e empresas. Essa linha de pesquisa deu inicio ao conceito conhecido como “ethically ambiguous negotiation tactics” (EATN).

Essas táticas, como o nome mostra, podem ou não ser consideradas eticamente aceitáveis, a variar de como são percebidas e executadas. É consolidada na literatura a identificação das principais dessas táticas que foram colocadas em uma escala conhecida como Escala SINS - Self-Reported Inappropriate Strategies. Não obstante, é claro, como todo construto teórico nas ciências sociais, não abarca a todas as possibilidades de interação humana, mas é uma escala que se mostra útil para exemplificar esses comportamentos. As cinco principais categorias SINS são: Blefe, forma inapropriadas de conseguir informações, ataques ao networking de sua contraparte, falsidade de identidade ou posição e a tradicional barganha competitiva (o querer vencer, que apontei em outros ensaios). A essa escala se junta à manipulação emocional, que pode ser positiva (ser simpático, agradável) como negativa (se valer de problemas emocionais ou desconfortos da contraparte).

Como podemos ver, a percepção dessas táticas como éticas ou não (e eficientes ou não) devem ser feitas pelo negociador antes e ao empregá-las. Ter essa percepção é um trunfo além de uma parte da preparação, e como vemos são altamente subjetivas e intrinsecamente ligadas à percepção. Claro que conhecer a cultura e as tradições de negócio da sua contraparte ajuda nessa seleção de táticas. Há, contudo, invariavelmente uma resposta negativa as táticas de blefe (altamente arriscadas e tensas, situações de ultimato ou promessas vazias, por exemplo) e a falsidade (por que confiança é parte essencial de uma relação, principalmente comercial, que se pretende ser de longo prazo e mentir não contribui para isso).

Durante uma negociação cada negociador provavelmente usará algumas dessas técnicas e táticas, por exemplo, algum grau de retenção de informação, manipulação da contraparte, tentativa de distrações para certos aspectos, tentando suprimir suas emoções dificultando a leitura da contraparte.

O desafio está em conciliar essas táticas que podem lhe ser impostas para ser executadas pelo contratante, chefe, superior hierárquico, com sua própria percepção do que é válido ou não, e a percepção da outra parte. Essas pressões afetam o resultado de uma negociação, por isso, estar ciente da sua existência, perceber seu uso e ter noção dos limites é tão importante quanto até onde aceitar, faz parte do exercício da negociação.

A manipulação emocional, por exemplo, é quase que inerente ao negociador, isto é, todo negociador tenta se apresentar como agradável, simpático, acolhedor ou o contrário disso a depender da natureza da negociação. E essas variações não estão apenas considerações racionais de estratégia e tática, mas também ao nível pessoal, porque o desconforto com o uso de algumas dessas táticas pode reduzir a capacidade do negociador, ou torná-lo de mais fácil leitura pela contraparte.

Por isso a preparação cultural, emocional e a capacidade de adaptação são tão importantes ao negociador. Daí, minha constante exaltação da preparação intelectual deste, principalmente a vantagem comparativa do negociador advindo da carreira acadêmica das relações internacionais, por sua natural percepção das nuances da linguagem e da cultura, além de ter estudado situações conflituosas e as capacidades de lidar com assuntos variados ao mesmo tempo (por exemplo, política, economia, história entre outras que lidamos simultaneamente). A vantagem está em, justamente por ter uma formação ampla, ter mais elementos para a tomada de decisões, que, como vemos acima, inclui a dimensão ética (não só a reflexão sobre seus atos e práticas, mas também como eles são percebidos pela contraparte e vice versa).

Assim, um negociador deve saber que nem todas as táticas são vistas como eticamente neutras, positivas ou negativas por todas as partes, e que algum grau de táticas dúbias estarão sempre à mesa. A percepção desses elementos como ponto de ruptura necessita de uma sintonia muito fina entre percepção e formação. E que mesmo que algum grau de ações eticamente ambíguas seja aceitável, há táticas que não tem eficiência e seu risco excede o benefício, além de criar uma pecha que pode lhe ser atribuída por toda sua carreira, que são as táticas ligadas ao blefe e a falsidade.

A manipulação emocional positiva é uma excelente tática cooperativa, por criar um ambiente sem hostilidade e nenhum grau de manipulação negativa. Aproveitar-se de deficiências (em capacidades não físicas, o que seria falta de classe total, convenhamos) é aceitável, mas a linha é tênue, variável e muito difícil de antever. Outra tática que, se descoberta, é muito negativa para a imagem do organizador e sua organização, além de conseqüências legais graves e por isso deve ser evitada, é usar de expedientes torpes de obtenção de dados, como grampos ilegais, obtenção de documentos da contraparte com suborno de membros de sua organização, espionagem e assim por diante.

Portanto, ao se engajar em uma atividade negociadora, é preciso que o negociador tenha a melhor quantidade de informação possível, esteja preparado para não cair em armadilhas culturais, tentar antever as EATN que possam vir a ser empregadas, delimitar pontos de ruptura, saídas paras as armadilhas e buscar equilíbrio emocional.

P.S: Quem se interessar por bibliografias sobre os temas abordados acima, visite meu blog, após a publicação desse texto, onde publicarei, mais uma vez uma lista com indicações de leitura.


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Este post foi escrito por:

Mário Machado - que escreveu 14 posts no MondoPost.

Mário Machado da Silva Filho, Consultor de Relações Internacionais, colunista do Portal Mondo Post, editor do Blog Coisas Internacionais, Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília – UCB.