Ceteris Paribus é uma expressão latina que significa: “tudo o mais permanece constante”. Qualquer um que tenha estudado economia (principalmente microeconomia e os princípios de funcionamento do mercado) sabe que a expressão é usada como ferramenta pedagógica para enfatizar correlações diretas. Por exemplo, se houver acréscimo de preço de um bem, quantas unidades a mais ou a menos venderá, considerando que todos os outros fatores permanecem congelados? Isso, obviamente, é um ferramental interessante, mas também nos dá uma idéia que pode ser exportada para a análise das relações internacionais.
Será que a troca ou não troca de presidente será apenas o preenchimento da condição ceteris paribus, ou seja, seria uma alteração que por natureza seria inócua no que tange as políticas levadas pelo Irã, que são motivos de discórdia e isolamento no sistema internacional. Entre elas, as principais: o apoio a organizações caracterizadas como terroristas, a retórica beligerante e intolerante quanto à existência do Estado de Israel e as insinuações nucleares (e não cumprimento da cláusula de inspeção).
A história nos mostra que todas essas políticas ganharam força com a Revolução Islâmica e são até hoje núcleo-duro da retórica mais ampla da política externa iraniana. Devo admitir que há um esforço grande feito pela diplomacia do Irã em projeção de softpower, principalmente a diplomacia cultural se valendo da herança da cultura persa.
A sociedade iraniana é muito, mas muito mais complexa e densa que a grande imprensa deixa transparecer, mas é uma sociedade cujos valores da revolução se mostram fortes e entranhados na maneira de ser das novas gerações. Não só pela força da coerção das leis, mas com os velhos mecanismo de despertar o nacionalismo. E para isso, nada melhor que um inimigo externo, como Israel ou EUA. E isso dá um norte que, independente da visão política, é mais ou menos consensual (sei que é um uso impróprio da palavra consenso, mas não me veio termo melhor) entre os Iranianos.
É curioso que um regime essencialmente ditatorial e teocrático tenha eleições. E eleições relativamente livres, já que os candidatos são pré-selecionados pelo conselho supremo. Mas pensando bem não é nada diferente de outros regimes ditatoriais longos, a via da supressão militar como único fator para forçar coerção é cara financeiramente, e provoca um recrudescimento das tensões e polarizações ao permitir zonas de tolerância política (mesmo que limitada). O regime fornece válvulas de escape e chance para a população exercer preferências em certos pontos da vida política nacional, o que prolonga a existência do regime, já que retira dos ombros dos Aiatolás o peso por coisas do dia a dia, como aumento da inflação e desemprego. E reforça sua imagem de liderança moral, que se ocupa unicamente dos valores de Estado.
Não deixa de ser um construto muito interessante, que sem dúvida merece estudos mais aprofundados, já que no Irã convivem a modernidade das redes sociais via internet, por exemplo, e os valores extremamente tradicionalistas que derivam da essência da revolução. Aparentemente a sociedade tem encontrado uma maneira muito interessante de coexistir entre modernidade e tradição, que parece ser o grande elemento, a grande questão das sociedades islâmicas. E devo reiterar, é admirável que isso se dê em um regime que, a priori, parece bastante fechado.
Os caminhos que serão tomados pelo Irã, com a ascensão da geração que nasceu depois da revolução, é uma incógnita e não tenho elementos para tentar esboçar, mas essa eleição mostra que apesar de não ser o que consideramos um democracia liberal, a vontade de participação política do povo iraniano é elevada e há um debate ativo sobre os destinos do Estado. Uma efervescência que em nada deve as democracias liberais mais institucionalizadas, com o particularismo de ser ultimamente uma teocracia, em que as eleições protegem e aumentam a autoridade moral dos Aiatolás, ou seja, pavimentaram seu caminho no poder ao justamente abrir de mão de exercê-lo com rigor e com os desgastes que disso advêm.
Em termos de política externa pode-se dizer que a vitória do atual presidente o colocará com mais munição e respaldo retórico que animará inúmeras controvérsias. Contudo, a existência de um grupo que, mesmo minoritário, defende uma posição mais voltada à cooperação é um fenômeno que não deve ser desprezado, nem aumentado em relevância.
Sobre a eleição e seu resultado, posso dizer com alguma certeza que a frase que mais bem descreve é ceteris paribus, ou seja, não obstante o resultado, no curto e médio prazo tudo permanece constante. Ou seja, Irã e Ocidente encastelados em suas posições. Consumindo combustível retórico, como um motor V-12, e inflamando ânimos e desconfianças e enquanto isso as pessoas comuns, o “Joe six pack”, o “Abdul six teas” e “Jacó six pack”, pagam o preço.
Imagem: Fonte.



















ter, 16 jun, 2009
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