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Por que contratar um bacharel em Relações Internacionais?

negociadores

Sim querido leitor, essa pergunta já apareceu em meu blog antes, e creio que aparecerá muitas outras vezes. Não que eu esteja me rendendo a algum esquema de atração de leitores por meio de massagens no ego sobre o que reserva o futuro, ou que esteja eu a fazer um blog de dúvidas vestibulandas, nada disso, essa pergunta é recorrente porque o tema é importante. Hoje abordarei a questão por um prisma que ainda não fiz, que é tratar do que é capaz de contribuir para uma organização um bom internacionalista. Tenham ênfase no bom e entendam bom como preparado, versado e capaz. Não confundam isso com o um clichê terrível que os bons terão sucesso sempre e os incompetentes sempre chorarão suas mágoas, devemos lembrar que existem mil maneiras de auferir sucesso que não só a via material e financeira.

Feita essa pequena digressão retornemos ao tema proposto. A resposta pode ser encontrada no que eu considero ser a principal virtú de um bom profissional de “mercado” (ou seja, de uma das sub-areas) das relações internacionais, que é a capacidade negociadora em um ambiente multicultural. Ai o leitor coça a cabeça, olha pro lado, pro outro e se pergunta: o que diabos é isso?

Respondo o “bom” profissional de relações internacionais por força da sua formação multidisciplinar é capaz de concatenar vários fatores ao se preparar para uma rodada de negociações, desde fatores legais, até fatores microeconômicos (como as elasticidades dos preços, da demanda, que ajudam a dar extremos de uma zona de negociação), passando pelos, muito importantes, fatores culturais e políticos, é capaz, portanto, de antecipar problemas que podem afetar a segurança do comprimento do acordo em negociação. Capacidade que, devido à natureza do ambiente de negócios internacionais, do caráter das negociações comerciais internacionais, da importância estratégica desses contratos internacionais, os montantes envolvidos e os custos decorrentes de um mau acordo, torna-se imprescindível.

E isso não é uma habilidade nata (tudo bem que quem almeja ser negociador, tem que gostar de gente, de ler, de se preparar, mas isso é óbvio, né?), é uma habilidade aprendida e treinada que, ao contrário do que muitos possam crer, depende e muito do conhecimento teórico das relações internacionais, da ciência política, da antropologia, da economia, além do dever de casa, que é conhecer todos os envolvidos na negociação em que você toma parte: desde a imprensa a sindicatos nos dois países. Para ser um bom negociador você deve aplicar o rationale acadêmico a um ponto específico, você deve aprender o máximo possível sobre o assunto e saber encontrar a melhor informação disponível. Quem lida com comércio exterior, por exemplo, sabe que informação é a parte mais cara e necessária de um processo de internacionalização.

Assim, um empresário que contrata um bacharel em relações internacionais para negociar em nome de sua empresa, não pode ver esse negociador como ente externo, mas sim como um agente capaz de negociar, com o mínimo (sendo o ideal nenhum) envolvimento emocional, ou seja, este empresário contrata alguém que vai defender seus interesses veementemente, mas com estratégia, cabeça fria, buscando um acordo que se situe dentro da zona de conforto de todos à mesa, garantindo assim negociações futuras.

Esse empresário contrata um especialista que não cometerá, ou o aconselhará a não cometer gafes culturais, que inviabilizem os negócios. A expertise que esse bom bacharel em relações internacionais traz para a formulação estratégica da empresa diminui muito os custos e os prazos associados a famosa curva da aprendizado de uma organização, ou seja, mesmo que esse negociador seja um consultor externo, ele pode contribuir para que o departamento de relações internacionais dessa empresa seja bem formulado e tenha parâmetros de aferição de seus desempenhos.

Mas, quantos são os internacionalistas (tenho uma birra com o termo), que tem essa capacidade negociadora? Quantos se preocupam em adquiri-la? Quantos não desperdiçam chances de aprender a negociar, por que se preocupam em ganhar simulações, modelos das Nações Unidas?

Essa habilidade não está em nenhuma aula especifica. Está em se preparar e conseguir conectar todos os aspectos ensinados no curso de maneira lógica e ordenada. Nem todos os bacharéis serão negociadores. A negociação e a consultoria empresarial são apenas mais alguns rumos que podem ser tomados após a graduação, mas não esqueçam que o objetivo da graduação e do ensino superior é aprender métodos de aprender sozinho, então não podemos sacrificar a qualidade da formação acadêmica sólida em nome da empregabilidade como não podemos esquecer que a empregabilidade é importante.

Como muitas questões na vida, o equilíbrio é difícil. Achar o balanço certo entre a formação acadêmica sólida e ‘optativas’ “profissionalizantes” é o maior desafio dos cursos de graduação em relações internacionais. E dos estudantes, por que todos nós temos obrigação com o nosso futuro. Não se pode esperar que a universidade ou a entidade de classe façam por você o que é obrigação sua: perceber suas aptidões e fraquezas e trabalhá-las.

Não é, ao meu ver, necessário que haja ênfase nisso ou em outras coisas na graduação, no sentido em que concordo que se ofereça o máximo de matérias altamente acadêmicas no curso, mas ao mesmo tempo em que se ofereçam espaços onde aplicações práticas e de mercado dessas matérias possam ser vistas pelos graduandos. Reitero, contudo, é obrigação de cada um descobrir suas vocações, seus sonhos e o caminho para realizá-los.

Portanto, não estou ensinando o caminho das pedras a ninguém, porque se o estivesse abordaria técnicas de negociação em si, estou apenas a mostrar mais uma das muitas alternativas de inserção profissional e algumas das características que se deve ter e cultivar para buscar essa linha de inserção. Mesmo por que há os que acham o mundo dos negócios internacionais tedioso ou mesmo algo menor, inferior, reles (todo mundo tem direito a pensar o que bem entende).

Em resumo, se contrata um profissional de relações internacionais, pelos mesmos motivos que se contrata um advogado. Sua expertise profissional, sua capacidade de negociar e defender interesses sem (em geral e preferivelmente) se alterar ou cometer erros que resultem em um mau negócio, tanto para quem contrata quanto para o outro lado, por que a essência da negociação cooperativa é que não haja um vencedor, e sim que todos saiam da mesa satisfeitos, mesmo que não se tenha alcançado o cenário de beneficio máximo, cenário A. E além de satisfeitos, saiam dispostos a negociar novamente, no jargão mercadológico, diríamos que criamos sinergia entre possíveis parceiros comerciais.

Mas, como já disse em meu blog, aulas e palestras muitas e muitas e muitas vezes: Não deixem de estudar nunca, de aprender, de se dedicar a parte acadêmica das relações internacionais, se não escrevendo e perseguindo títulos acadêmicos que seja lendo livros e revistas especializadas. Manter-se atualizado e informado nunca atrapalhou ninguém.

Mário Machado da Silva Filho, Consultor de Relações Internacionais, editor do blog CoisasInternacionais e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília.

Imagem: Fonte.


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Mário Machado - que escreveu 14 posts no MondoPost.

Mário Machado da Silva Filho, Consultor de Relações Internacionais, colunista do Portal Mondo Post, editor do Blog Coisas Internacionais, Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília – UCB.